O PSOL e a eleição presidencial de 2018

Postado por Modesto Neto às 22:42

Por Modesto Neto

A eleição presidencial de 2018 será um divisor de águas na história política brasileira. Em 1989, no contexto de abertura democrática, a corrida presidencial registrou um grande número de candidatos, vista as massas em disputa naquele momento histórico. Neste ano não será diferente. A diferença fundamental é a conjuntura: hoje vivemos ascensão autoritária, enquanto que em 1989 a truculência virava caretice na lata de lixo da história.

O certo é: o deputado Jair Bolsonaro (PSL) e seus papagaios de pirata (os dois filhotes vereador e deputado) provam que até mesmo o lixo mais asqueroso consegue ser reciclado. O discurso de ódio surfa alto numa onda de negação da democracia, da política e dos projetos das esquerdas. É improvável que esse projeto autocrático logre êxito. Esse subproduto do fascismo à brasileira derreterá como uma estátua de sal numa tempestade molhada, mas deixará sequelas indeléveis: o racista que berra e vocifera, o agressor que bate em mulheres e o homofônico que espanca gays saíram do armário sem medo de vomitar cultura de ódio, pura e simples. 

Lula e o PT, enrolados em corrupção e alvejados por um judiciário elitista e seletivo, aguardam o julgamento do ex-presidente no dia 24 de janeiro, decisão esta que poderá deixar o principal nome petista inelegível. Enquanto isso o PCdoB lança Manuela D’Ávila, PDT e Rede lançam os ex-ministros Ciro Gomes e Marina Silva à Presidência. O chefe do Ministério da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD) cavalga uma economia lenta e acalenta o sonho de reunir DEM e PMDB em torno de seu nome para o mais alto posto da República. Os tucanos se acotovelam no ninho paulista: o prefeito João Dória, o senador José Serra e o governador Geraldo Alckmin querem ser o nome na disputa pelo PSDB.

Frente este turbilhão de acontecimentos e possibilidades uma pergunta merece resposta. Onde entra o PSOL nisso tudo? 

O Presidente Nacional do PSOL, Juliano Medeiros, no artigo É hora de ousar, defende o nome de Guilherme Boulos (líder do MTST) como candidato presidencial. Essa postulação enfrenta um problema central: Boulos sequer é filiado ao PSOL e aparentemente sua filiação está condicionada a sua candidatura ao Palácio do Planalto. O pior: Boulos seria candidato com o Programa construído pela plataforma digital “Vamos!”, encabeçada pelo MTST e outros movimentos. O acumulo é um extenso conteúdo que não foi debatido nas bases do PSOL. Na campanha Boulos aparecerá como um “Lula requentado” em um momento em que o melhor da consciência política brasileira pede mudanças e demarcações claras com o acordo entre as elites, não uma linha auxiliar ao lulismo. 

Talvez em tese Boulos signifique o desejo de parte da direção majoritária do PSOL de disputar os lutadores que se bateram contra o golpismo, mas não se sentem representados pelo PT. Entretanto, um partido socialista não pode terceirizar uma candidatura presidencial em um momento histórico fundamental. Optar por Boulos é correr o risco de vacilar em um momento que a esquerda socialista não tem esse direito. O PSOL tem ainda como dever buscar a construção de uma Frente de Esquerda Socialista junto ao PCB, movimentos sociais e demais organizações da esquerda. 

O PSOL tem quatro pré-candidatos à Presidência reconhecidos no 6º Congresso Nacional: o professor da Unicamp, Plínio de Arruda Sampaio, a líder indígena Sônia Guajajara, o pedagogo e líder do movimento negro baiano, Hamilton Assis e o intelectual catarinense, Nildo Ouriques.  Esses quatro nomes gozam dos direitos de filiados. Dentre os pré-candidatos, Plínio Jr. é o que melhor representa a reafirmação do programa fundacional do PSOL: a superação do petismo pela esquerda, não sua repetição. 

Juliano Medeiros está certo: é hora de ousar. O PSOL tem que ousar com suas próprias figuras e seu próprio programa. A construção de uma alternativa para o povo brasileiro não se faz pegando nascentes líderes populares por empréstimo. Boulos é o caminho mais curto e rápido para a redução do PSOL a condição de legenda. O PSOL está atrasado, precisa lançar seu nome presidencial para ontem, mas esse nome não é o de Guilherme Boulos. 

(*) Professor de História e cientista social.