A crise política no Brasil: uma análise para o enfrentamento

Postado por Modesto Neto às 14:58


Por Pedro Vitor Câmara

“O erro do PT foi deixar o povo vulnerável aos impactos da crise, porque a crise já era esperada”. Essa foi a mais assertiva frase dita por Plinio de Arruda Sampaio Jr, pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, em visita recente a cidade de Natal.  É com esta frase que começo esse artigo, onde busco fazer uma breve análise do atual momento histórico que vivemos. 

O Governo de exceção que se instaurou no poder a base de golpe, tem uma agenda direcionada para a readequação do Estado brasileiro, completamente submissa ao capital estrangeiro. A já conhecida “atratividade” agora é gerada a partir de retiradas estratégicas dos escassos direitos da classe trabalhadora do país.  A Reforma Trabalhista e Previdenciária, assim como a PEC do Teto de Gastos Públicos, nos recoloca nos trilhos da tragédia liberal e do Deus adorado pelos golpistas: o tal “mercado”. Vale destacar que esse Deus “Mercado”, adorado pelos liberais “não tem limite e nem moral”, como define o economista francês Thomas Piketty.  

Logo, todos os problemas estruturais e históricos do nosso país são rapidamente alçados aos ombros do povo, esse que paga a conta e o pato. A elite, por sua vez, ainda vive com a mentalidade subserviente e escravista, uma verdadeira elite do atraso – como diria Jesse de Souza.  Nestes termos não é difícil perceber que na disputa do orçamento público nos Estados, os ganhos sociais do povo mais pobre estão fadados a derrotas previsíveis. Na iminência de uma crise fiscal, a saúde e educação são as mais recorrentes moedas de troca. Por outro lado, nós continuamos trabalhando para pagar os banqueiros e juros da Dívida Pública, o mais eficaz mecanismo de concentração de renda que a economia capitalista foi capaz de criar.

Ademais, o produto disso é a volta do país ao mapa da fome. Junto com os altos índices de desemprego e a precarização generalizada no mundo do trabalho. Não esquecemos que a concentração de renda “volta” a assombrar a nossa sociedade, dado que a pesquisa de desigualdade mundial denota que os 1% de canalhas do colarinho branco que estão no topo da pirâmide econômica detém a fatia de quase 30% da renda do Brasil. Somos o primeiro lugar do mundo em desigualdade. Esse dado é o ponto central do aumento da violência e ausência de oportunidades para o cidadão comum, Carlos Eduardo Taddeo ilustra isso muito bem nas suas letras com a frase “o sangue no morro é o combustível do jato”. A origem dessa riqueza tem lastro no período colonial e, por séculos, se transfere através da elite política de rapinadores infiltrados no Estado para os herdeiros das oligarquias econômicas, como nos ensina Celso Furtado e Nelson Araújo de Souza. 

Essa conjuntura economia é ponto-chave para se compreender as contradições do sistema político da atualidade. A representatividade desse sistema é lastreada no poder econômico por trás das riquíssimas campanhas. Após eleitos, os representantes do povo passam a ser controlados de perto pelos lobbys empresariais e tendem a surrupiar o nosso poder de ação e o lastro popular da democracia. O efeito social disso é a descrença com a política, o que acaba gerando mais canalhas nos espaços de poder. É preciso de seriedade para acabar com o estado de bestialização que o povo é jogado desde 1987 como bem escreveu José Murilo de Carvalho. É necessária uma overdose de democracia para acabar com o patrimonialismo do Estado e enfrentar os problemas estruturais. Essa é a verdadeira revolução que o Brasil precisa.

(*) Pedro Vitor Câmara é acadêmico de Direito na UFRN, ativistas dos Direitos Humanos e militante da Nova Práxis, corrente interna do PSOL.


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