Uma visão sobre o início de tudo

Postado por Modesto Neto às 02:20



Quase dez anos após o início da operação do Grande Colisor de Hádrons (LHC), as perguntas da Física parecem hoje mais teóricas do que experimentais. “A questão agora é: ok, nós sabemos como são as partículas elementares e sabemos como elas atuam; mas… por quê? Por que elas são da forma como são?”, questiona o físico laureado do Nobel Gerard ’t Hooft, da Utrecht University, na Holanda. Na UFRN para uma reunião do Conselho Consultivo do Instituto Internacional de Física e para uma palestra pública sobre buracos negros e gravidade quântica, em março, o pesquisador ofereceu uma breve e geral visão sobre o curso dos estudos atuais e explicou seu ponto de vista sobre o campo das partículas elementares.

Para ’t Hooft, as questões de hoje são mais difíceis de serem testadas experimentalmente porque seriam necessárias “extrapolações”, afinal, quanto mais energia se obtém em uma colisão, mais é revelado sobre as menores estruturas das partículas. E já se sabe o que pode sair do LHC, com sua limitação de cerca de 14 tera eletron-volt de energia (algo imenso comparado a um átomo, porém não muito maior que a energia cinética de um mosquito!), mas ninguém sabe se podem aparecer novas partículas a energias mais altas. Segundo ele, fazer esse experimento implicaria em máquinas inimaginavelmente grandes. “Agora estamos limitados. Precisaríamos de uma colisão muito, muito mais forte que aquela (do LHC), e de uma máquina milhões de vezes maior. É impossível. Então, temos que imaginar”.

É possível haver forças da natureza que não conhecemos ainda? “Claro, e provavelmente há”, ele responde. Forças que ainda não foram detectadas porque seriam tão pequenas que não existe conhecimento suficiente para criar experimentos a fim de estudá-las. Físicos do mundo inteiro têm imaginado algumas dessas possíveis forças através da supersimetria, propriedade que sugere que, na teoria das cordas, cada bloco de construção fundamental conhecido do universo seria equilibrado por uma partícula parceira de um tipo oposto.

Hooft mostra-se entusiasmado diante das possibilidades que vêm da supersimetria, também conhecida como SUSY, que “é tão bonita matematicamente que deve estar certa. É algo grandioso, e parece responder a muitas das nossas questões. Seria ótimo se as forças gravitacionais pudessem ser explicadas pela supersimetria”. Mas admite que ainda há dúvidas: “É muito difícil de imaginar. Supercordas e supersimetria são extremamente teóricas, extremamente abstratas, então nós podemos cometer erros extremamente grandes. Trata-se de enormes especulações”. Os físicos estão ficando céticos, mas é possível que a supersimetria só apareça a energias mais altas do que a do LHC. Ninguém sabe.

Perguntado sobre qual questão da Física está empenhado em tentar responder atualmente, Gerard ’t Hooft disse que são várias, mas a principal delas é a natureza fundamental da mecânica quântica. O pesquisador afirma que não se sente feliz quanto ao que se sabe formalmente acerca do modo como se comportam as menores partículas do universo. No momento, ele só pode fazer especulações baseando-se em intuições físicas e matemáticas, pois o LHC está longe de poder testar a energia em que efeitos quânticos gravitacionais poderiam aparecer. Assim como as outras questões que lhe encantam e desafiam, essa também é, sem dúvida, bastante abstrata e de difícil experimentação.