Em estreia de turnê, Barão Vermelho mostra nova cara com Suricato

Postado por Modesto Neto às 01:51



Após cantar Bete Balanço (Roberto Frejat e Cazuza, 1984), quinta das 25 músicas do roteiro da estreia nacional do show da turnê #Barãoprasempre, o novo vocalista e guitarrista do grupo carioca Barão Vermelho, Rodrigo Suricato, fez pose triunfante diante dos aplausos avalizadores do público que encheu o Circo Voador para assistir à decisiva apresentação iniciada aos primeiros minutos deste domingo, 7 de maio de 2017. Suricato percebeu ali que o jogo já estava ganho.

Por mais que o Barão estivesse em casa, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) e no palco onde já fizera shows históricos, o mérito da vitória é sobretudo de Suricato. Com canto e energia contagiantes, o artista carioca – substituto de Roberto Frejat no posto de vocalista originalmente ocupado por Cazuza (1958 – 1990) – ganhou a plateia e os críticos, afastando o Barão Vermelho do risco de soar como cover de si mesmo.

É claro que o mérito da consagradora estreia tem que ser repartido com Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados) – ambos integrantes da formação original da banda surgida em fins de 1981 – Fernando Magalhães (guitarra) e Rodrigo Santos (baixo). Os músicos estavam afiados, entrosados, e mantiveram a apresentação na pressão, mesmo quando rebobinaram uma ou outra música menos empolgante, caso do rock Dignidade (Roberto Frejat, 1987). Mas é fato que todo o peso da estreia recaía sobre a performance de Rodrigo Suricato, anunciado como novo vocalista e guitarrista do Barão em 17 de janeiro deste ano de 2017.

Aparentemente sem se intimidar com o peso da cobrança, Suricato esbanjou talento, confiança e intimidade com o repertório, merecendo saudações pela coragem. A voz do cantor evocou o timbre de Frejat no revival de rocks inebriantes como Pense e dance (Dé Palmeira, Guto Goffi e Roberto Frejat, 1988) e Declare guerra (Roberto Frejat, Guto Goffi e Ezequiel Neves, 1986), amenizando a sensação de ruptura na trajetória do Barão Vermelho. E, justiça seja feita, Suricato se revelou atento intérprete dos versos que canta, superando o próprio Frejat ao cantar com propriedade músicas como o rock Billy Negão (Maurício Barros, Guto Goffi e Cazuza, 1982).

Aberto com Pedra, flor e espinho (Roberto Frejat, Fernando Magalhães e Dulce Quental, 1992), o roteiro abrangeu músicas de todas as fases do Barão Vermelho. A junção dos toques das guitarras de Fernando Magalhães e do próprio Suricato potencializou a força de rocks como Ponto fraco (Roberto Frejat e Cazuza, 1982). De volta ao Barão Vermelho, Maurício Barros arrasou nos teclados, pondo um toque de R&B – ritmo presente na gênese que pariu esse tal de rock'n'roll – em músicas como Carne de pescoço (Roberto Frejat e Cazuza, 1983) e Tão longe de tudo (Guto Goffi, 1990).

Composto por telão que projetou fotos e imagens que variaram conforme cada música, o cenário se harmonizou com a luz do show, realçando em músicas como Eu queria ter uma bomba (Cazuza, 1985) o vermelho, a cor mais quente de apresentação de temperatura elevada. Tanto que a balada Meus bons amigos (Fernando Magalhães, Guto Goffi e Maurício Barros, 1994) ganhou peso no show, em número que evidenciou o toque poderoso da bateria do barão original Guto Goffi, sempre atento na marcação.

Essencialmente um show de rock, celebrado na pegada stoniana de Por que a gente é assim? (Roberto Frejat, Cazuza e Ezequiel Neves, 1984), #Barãoprasempre estreou com roteiro que harmonizou canções – casos da menos ouvida balada Enquanto ela não chegar (Guto Goffi e Maurício Barros, 1999) e da apaixonada Por você (Roberto Frejat, Maurício Barros e Mauro Sta. Cecília, 1998), rebobinada com mais energia do que o habitual  – e blues, presente na atmosfera depressiva de Down em mim (Cazuza, 1982) e no âmago de Quem me olha só (Roberto Frejat e Arnaldo Antunes, 1987), número em que o versátil Suricato trocou a guitarra pela gaita. Até Puro êxtase (Guto Goffi e Maurício Barros, 1998) teve o beat eletrônico original dissolvido na pulsação do rock.



O roteiro também abriu espaços para solos vocais de Maurício Barros –  intérprete de Não amo ninguém (Roberto Frejat, Cazuza e Ezequiel Neves, 1984), música que Barros já cantava desde os tempos em que comandava a banda Buana 4 – e Rodrigo Santos, solista de Cuidado (Roberto Frejat, Maurício Barros e Marcelo Rosauro, 2005).

De volta ao microfone, Suricato cantou Menina mimada (Maurício Barros e Cazuza, 1983) e afiou o sentido político de Brasil (George Israel, Nilo Romero e Cazuza, 1998) – sem a batida de samba – antes de um solo da percussão com molho latino de Peninha ser ouvido em off para saudar o músico Paulo Humberto Pizziali (1950 – 2016), barão que saiu de cena no ano passado. Na sequência, Maior abandonado (Roberto Frejat e Cazuza, 1984) encerrou o show na pressão habitual.

No meio do bis, aberto com a balada O poeta está vivo (Roberto Frejat e Dulce Quental, 1990) para celebrar Cazuza e fechado com a sempre apoteótica Pro dia nascer feliz (Roberto Frejat e Cazuza, 1983), Suricato enfatizou sintomaticamente o verso-título de O tempo não para (Arnaldo Brandão e Cazuza, 1989). E tudo fez sentido. Ao reabrir o museu de grandes novidades na voz de Suricato, a banda fez o presente repetir o passado, mas não como farsa.

Contra todos os prognósticos pessimistas e diagnósticos apressados (inclusive do autor desta resenha), o Barão Vermelho ganha fôlego para dar continuidade por mais tempo à trajetória do grupo, a partir de agora com a cara, a voz, a energia e a estrela de Rodrigo Suricato. 

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