Cuba: Um povo altivo

Postado por Modesto Neto às 20:44

Por Luiz Araújo

Uma valorosa delegação do Partido Socialismo e Liberdade – PSOL esteve em Cuba para prestar as homenagens a Fidel Castro. Como parte da programação, na noite de terça-feira (29/11), na Praça da Revolução, ocorreu um gigantesco ato político, o qual contou com a presença de dirigentes de países de todo o mundo.

Fala-se que lá estiveram cerca de um milhão de pessoas. Certamente havia esse número e de fora de Cuba éramos muitos, mas ao mesmo tempo éramos poucos. Foi um ato dos cubanos em homenagem ao dirigente que colocou Cuba no mapa mundial.

Como presidente nacional de um partido de esquerda num país tão grande como o Brasil talvez tivesse conseguido um lugar nas centenas de cadeiras reservadas a convidados internacionais. Fico alegre de ter assistido ao ato no meio do povo cubano, sendo mais um na homenagem.

Do lado de nossa delegação, composta por mim, por Juliano Medeiros (presidente da Fundação Lauro Campos), Roberto Robaina (vereador eleito de Porto Alegre), Tárzia Medeiros (do Diretório Nacional) e Lívia Duarte (do Setorial Nacional de Mulheres) estava o povo cubano.

Durante mais de quatro horas de solenidade, aguentaram firmes, em pé, jovens estudantes, médicos, soldados, senhoras idosas, pais com seus filhos, camponeses e operários. Acompanhei a reação deles, vi o brilho no olhar a cada referência aos avanços sociais da Revolução, o encantamento dos jovens a cada referência a coragem de Fidel, o orgulho de cada um a cada referência de que Cuba ajudou a acabar com o analfabetismo em vários países do mundo. Vi um povo altivo, orgulhoso de sua história, de seus líderes e de saber que o mundo sabe que eles existem.

Confesso que não esperava ver no ato uma maioria de jovens. Isso foi a maior das gratas surpresas que tive ao visitar Cuba após 13 anos. Todos sabem das dificuldades que a crise econômica capitalista tem provocado na vida dos povos de nosso continente. Eu Ficava imaginando os seus efeitos em Cuba, vítima do mais cruel cerco econômico da história recente. Seria natural que os jovens fossem os mais arredios a reconhecer o passado de luta do século XX, eles são filhos do século XXI, ansiosos pelas tecnologias e pelo consumo. Mas eu estava muito enganado, eles me pareceram valorizar muito a sua história, aprenderam a ter orgulho de sua história, são altivos como todo cubano que conheço, mesmo que certamente queiram muito mais do país e do mundo do que possuem neste momento.

Havia líderes de países de todo o mundo, mas lá estavam aqueles que apoiam de alguma forma Cuba ou possuem laços comerciais e históricos com a pequena ilha. Da distante Grécia veio o presidente Alexis Tsipras. Da África vieram os países que são independentes hoje e para que fossem tiveram a decisiva contribuição de Fidel e de abnegados soldados cubanos. Estavam lá Evo Morales, Daniel Ortega, Nicolas Maduro e o presidente de El Salvador.

Aliados comerciais e geopolíticos também estavam, com destaque para a China. Bastava andar por Havana para sentir o quanto este país tem sido no momento importante para furar o bloqueio econômico dos EUA. Até o presidente do México estava lá.

Não dá para esquecer que o Brasil, país que desde a redemocratização mantém relações diplomáticas com Cuba, que possui líderes que gozaram da amizade com Fidel, que possui ligações econômicas e políticas com a ilha, devido ao golpe institucional, foi o grande ausente. Não esperava e ficaria envergonhado em ver um presidente golpista representar nesse momento histórico do povo brasileiro, foi melhor não ter ido, não nos representa. Mas, em que pese as divergências que temos, faltou coragem para Lula estar presente. Felizmente Frei Beto não deixou que o palanque das autoridades estivesse sem alguém digno de nosso país.

Lá pelas onze horas, a multidão que assistia a solenidade foi para as suas casas. Não houve durante toda a solenidade nenhuma confusão. Apenas pessoas com mal estar, sendo atendidas. Não havia soldados armados protegendo os líderes, havia cubanos civis fazendo um cordão para dar segurança ao corpo diplomático no final do ato, apenas separando em dois fluxos a ordeira saída de todos.

Foi uma demonstração de que para a maioria dos cubanos Fidel não foi um ditador (como nossos jornais insistem em falar), mas sim uma espécie de fundador do país que hoje existe. Como disse antes, Cuba entrou no mapa mundial por que fez uma revolução socialista a alguns quilômetros do maior império do século XX, por que resistiu bravamente e resiste contra um cruel bloqueio econômico, por que ajudou todos os processos progressistas que ocorreram na segunda metade do século passado na América Latina e África, por que deixou um legado de ideias que influenciou milhões de seres humanos.

O que levou Cartago a resistir aos ataques romanos? O mesmo que faz os cubanos resistirem aos ataques do Império do Norte: altivez.

O Império ataca Cuba não pela sua importância geopolítica ou por que seu poderio militar ou econômico possa preocupá-lo. O ataque é contra o exemplo de que sempre existe outro caminho.