Um balanço da esquerda nas eleições de 2016

Postado por Modesto Neto às 11:16


Por Nova Práxis

Eleições 2016: vitória da direita e reorganização da esquerda

As eleições regulares expressam movimentos de massa, reorganizam a geopolítica e explicam a correlação de forças na luta de classes, mesmo de forma imprecisa e deformada. Por isso é necessário tirar conclusões das eleições municipais de 2016, entendendo os movimentos das forças no xadrez da política institucional, buscando a melhor tática para o diálogo com a população e o avanço de um projeto independente e socialista dos trabalhadores. 

A direita saiu vitoriosa das urnas. O PSDB foi o grande vitorioso das eleições de 2016, conquistou 17.6 milhões de votos para seus candidatos a vereadores no Brasil. Na principal metrópole da América Latina – São Paulo, a vitória tucana de Dória sinaliza o PSDB como o autêntico representante da burguesia e dos setores dominantes no país. O PMDB cravou 14.8 milhões de votos nos seus candidatos proporcionais e ao lado do tucanato mantém sua forte influência reacionária e conservadora em grandes cidades. 

O PT amargou uma perda de mais de 10 milhões de votos nos seus candidatos a vereadores. Em 2012 havia obtido 17.2 milhões, este ano apenas 6.8 milhões. A crise do petismo é evidente e o Nordeste não é mais um reduto pró-PT. O próprio Lula perdeu força para transferir votos no Nordeste e a única capital que o partido disputa o segundo turno no país é Recife, onde provavelmente perderá para Geraldo Júlio do PSB. Sem a máquina do Governo Federal e com Lula sob investigação o PT entra em declínio nas urnas e enfrenta o rechaço popular.

O PSOL obteve 2.09 milhões de votos nos seus candidatos a vereadores e elegeu representantes no Legislativo em todas as regiões do Brasil, consolidando sua representação nacionalmente. No primeiro turno o PSOL elegeu dois prefeitos no Rio Grande do Norte e apenas 53 vereadores no país. Entre 2012 e 2016 o PSOL cresceu pouco, mas se solidifica como um polo da esquerda socialista.  No segundo turno o partido disputa em Sorocaba (SP) e duas capitais: Belém e Rio de Janeiro. 

No Rio, com apenas 11 segundos na propaganda eleitoral, o Freixo foi ao segundo turno apoiado pela aliança PSOL-PCB, obtendo 18,26% (553 mil votos). A eleição carioca é muito difícil, mas é um jogo ainda em aberto. A candidata da Dilma e do Lula, a deputada Jandira Feghali do PCdoB, obteve apenas 3,34% dos votos validos no primeiro turno. A ida do Freixo ao segundo turno e uma eventual vitória contra o Crivella simbolizaria a superação do petismo pela esquerda na segunda maior cidade do Brasil. Os refletores do Brasil estão voltados para o Rio, a esperança da esquerda socialista está depositada no Freixo. O desafio de dialogar, vencer a eleição e não rebaixar o programa é enorme. O desenrolar da situação do Rio será o divisor de águas para a esquerda no Brasil. 

O PSTU ratificou sua política sectária, negou-se a construir a Frente de Esquerda Socialista em inúmeras cidades e usou a insígnia do “Fora Todos” como principal bandeira eleitoral. O PSTU tem limitações em dialogar com os problemas reais das cidades e não elegeu nenhum vereador no Brasil, tendo apenas 77.9 mil votos em todo país. O Movimento por uma Alterativa Independente e Socialista (MAIS) concorreu com seção da legenda do PSTU e teve aproximadamente 12 mil votos. Em Natal (RN) a não reeleição de Amanda Gurgel é uma dura derrota para a classe trabalhadora e a luta de classes, resultado direto da política equivocada do PSTU. 

A importante questão das tendências políticas da juventude merece um debate de folego. O crescimento da direita – conservadora e liberal – entre os segmentos da juventude, é um fenômeno que merece especial atenção. No Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro cravou 14% dos votos para prefeito. Em São Paulo, o líder do MBL, Fernando Holiday que tem apenas 20 anos, foi eleito o 13º candidato a vereador mais votado da capital paulista: quase 50 mil votos. Ambos são expressão de uma juventude que em determinado grau é seduzida pelos chavões da direita em síntese existe um crescimento ideológico do conservadorismo espraiado na sociedade. 

O cenário nacional indica a vitória acachapante da direita e a necessidade de reorganização da esquerda. O PSOL tem como principal tarefa política superar o PT pela esquerda, sem flertar com a conciliação de classes e reaproximar os milhões de trabalhadores desiludidos com a experiência petista. O PSOL segue se consolidando como uma alternativa, opondo-se radicalmente ao impopular e golpista Temer, será possível ir mais longe em próximas eleições. Os pleitos de 2016 foram um preludio de uma nova esquerda que pode surgir. 

Eleições 2016 no RN: balanço e tarefas imediatas

No Rio Grande do Norte o golpista PSD do governador Robinson Faria saiu vitorioso das urnas em 52 prefeituras, mas perdeu na grande maioria dos grandes centros urbanos e sequer conseguiu viabilizar candidaturas em Natal e Mossoró, as duas principais cidades do Estado. Em Caicó o partido ficou em quinto e último lugar com apenas 4,7% dos votos no candidato Nildson Dantas. Em Assú e Parnamirim os candidatos do PSD ficaram em segundo lugar. A direita saiu vitoriosa no RN, o PMDB soma 41 prefeitos eleitos, DEM 16 e PSDB 10. PSD, PMDB, DEM e PSDB governarão juntos 119 dos 167 municípios potiguares a partir de janeiro de 2017. 

O PT potiguar sofreu o mesmo processo de declínio nacional. Em 2012 o PT havia eleito 7 prefeitos, 9 vice-prefeitos e 63 vereadores no RN. O pleito de 2016 foi um verdadeiro revés para o petismo que saiu das urnas com apenas dois prefeitos e apenas 37 vereadores. Na capital o PT ficou em 3º lugar apesar do apelo do apoio do ex-presidente Lula ao candidato do partido, Fernando Mineiro. Apesar do mandato da senadora Fátima Bezerra ser bem avaliado, os números eleitorais do PT foram decepcionantes. A narrativa petista do golpe institucional não se aplicou na tática eleitoral do PT potiguar que saiu aliado com o PMDB em Parelhas e outras cidades do Estado. 

O PSOL lançou 14 candidaturas majoritárias e vive dois fenômenos políticos recentes: consolida o professor Robério Paulino como sua principal figura pública em nível estadual e torna-se uma alternativa para um polo da esquerda anticapitalista potiguar que quer de expressar com peso nas eleições sem rebaixar o programa político. O PSTU fez uma escolha equivocada na capital e sua candidata Rosália Fernandes, ficou em penúltimo lugar com 0,39% ou 1.398 votos. Um resultado péssimo para quem elegeu em 2012 a vereadora mais votada da história política da capital potiguar, Amanda Gurgel com 32 mil votos. A própria tática equivocada do PSTU foi responsável pela não reeleição de Amanda que teve mais de 8 mil votos e foi a segunda colocada. 

O PSOL conseguiu vencer a eleição em duas prefeituras potiguares. O professor Oton Mario venceu as eleições em Jaçanã com 49,9% dos votos. A campanha de Oton se tornou um movimento de massas local e o rechaço a classe política se expressou em sua vitoriosa votação. O enorme desafio de governar com base no poder popular e sem nenhum vereador na Câmara faz de Jaçanã uma experiência política especial que merece todo o apoio do PSOL e a atenção dos analistas da política. A gestão popular de Jaçanã tem o desafio de entrar para a história como uma experiência ecosocialista inédita. Antes da convenção eleitoral que homologou a coligação formal entre PSOL e PV, vale destacar que foi a Nova Práxis que defendeu nos fóruns do partido a edição desta tática para viabilizar a candidatura majoritária do PSOL na cidade. O PSOL tinha apenas Oton Mario como filiado e não poderia concorrer a eleição sem um candidato a vice-prefeito e um postulante ao Legislativo, neste sentido a tática de coligação com o PV (que só tinha dois filiados na cidade) foi fundamental para disputar as eleições e ganhar a consciência da cidade para um projeto de ruptura com as oligarquias locais. O outro prefeito do PSOL eleito no RN foi Zé Bezerra em Janduis, obtendo 55% dos votos e elegendo dois vereadores ao parlamento, Artur Barbosa e Jacyntho Filho.

Em Currais Novos o PSOL alcançou 3,7% com a candidatura majoritária de Zé Coco à prefeito, para o Legislativo foi eleito o professor Marcos Toledo. Na Região Central o PSOL teve sua primeira experiência na disputa eleitoral, apresentou duas candidaturas majoritárias, uma em Angicos com o professor Modesto Neto e outra em Fernando Pedrosa com Mayque Lima, trabalhador dos Correios. Em ambas as cidades o partido alcançou 3,2%. 

A campanha política do PSOL em Angicos se destacou pelo caráter classista, agitando a campanha que todos os políticos da cidade (prefeito, vice e vereadores) recebessem o salário de uma professora, pautando a questão nacional do “Fora Temer” e apresentando um programa político de intensa e radical participação popular à frente da Prefeitura. Apontamos que a campanha em Angicos foi orientada programaticamente de forma exemplar, tornando-se uma campanha anticapitalista que ganhou espaço e respeito entre os setores dos trabalhadores e deve ser vista como uma referência no Estado e no país. A Nova Práxis participou ativamente das campanhas de Angicos e Fernando Pedrosa através da participação de Modesto Neto, Ângelo Magalhães, João Paulino, Neto Monteiro e Johnata Macedo. 

Em Mossoró, segunda maior cidade do Estado, o Diretório Nacional impugnou a coligação entre PSOL e o PSDC. A direção majoritária do PSOL em Mossoró tingiu negativamente o desempenho do PSOL potiguar com uma aliança que estava fora dos marcos congressuais do partido.  É necessário e urgente a apuração rigorosa e uma possível punição de todos os dirigentes que desrespeitarão as resoluções eleitorais do partido.

O PSOL conseguiu a reeleição do vereador Sandro Pimentel em Natal. O professor Robério Paulino teve o melhor desempenho eleitoral do partido nas capitais do Nordeste, alcançou 6,8%, sendo a sexta melhor votação nacional do partido. Apesar do abandono de algumas correntes internas da campanha majoritária e o tempo limitadíssimo de rádio e TV: 11 segundos. A Nova Práxis insistiu até o último momento na Frente de Esquerda com PSTU, PSOL e PCB, rechaçou qualquer tipo de aliança com a REDE e propôs plenárias abertas de militantes para discutir o Programa de Governo. O dirigente da NP, Ângelo Magalhães teve papel crucial nas interlocuções que garantiram a rejeição a REDE e as plenárias de militantes. A campanha do professor Robério Paulino foi importantíssima para avanço da educação política da cidade e teve um caráter programático exemplar. A votação do PSOL em Natal e no Rio Grande do Norte consolida o partido no Estado. 

Por fim, fica claro que a tarefa urgente da esquerda socialista potiguar é reorganizar-se, aglutinar os setores populares de luta que batem-se contra o Governo Temer e estão descontentes com o fracasso da conciliação de classes petista. Ocupar as ruas sob a tônica da Greve Geral e conta a retirada de direitos é o passo que a conjuntura atual exige. Um programa ousado de formação política para a nossa juventude é essencial para formar os novos quadros políticos da esquerda socialista potiguar, esta é uma tarefa urgente para garantir que nossos dirigentes e militantes estarão a altura do momento histórico do futuro próximo.  Em 2018, somente tornando-se uma alternativa política capaz de arrastar milhares, com o peso das ruas e dos movimentos sociais, será possível superar o petismo e denunciar as oligarquias conservadoras que governam o Rio Grande do Norte há décadas. O desafio é enorme. 

(*) Nova Práxis, organização política, corrente interna do PSOL.
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