Quando a rua se torna um palco da guerra e a violência toma o lugar do debate político, ninguém ganha, todos perdem.

Postado por Modesto Neto às 23:31

Por Modesto Neto

O ex-ministro do Turismo e presidente do PMDB potiguar, Henrique Eduardo Alves, figura pública citada na Operação Lava Jato por suposto recebimento de 1,5 milhão em propina paga por Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, esteve na noite do último sábado (3) na cidade de Angicos-RN, durante comício eleitoral que ocorreu atrás da Igreja Matriz e infelizmente o que deveria ser apenas mais uma atividade comum da campanha política se transformou em um tumulto que colocou em risco a vida e a integridade física de pessoas que sequer estavam em vias públicas, mas resguardados à minha residência.

A figura do ex-deputado Henrique Alves que por vezes já foi associada a escândalos de corrupção, desperta a sensação de asco em parcela significativa da população potiguar e brasileira. Os episódios de repúdio e protestos pacíficos contra sua pessoa são vários e próprios da democracia. Eu que sempre formulei contundentes e ácidas críticas ao ex-deputado, sempre o fiz no campo do debate político sobre os projetos de sociedade, jamais agredi ou incentivei a violência contra ele ou qualquer agente público ou político, independentemente de sua filiação partidária ou ideológica.

Na noite do sábado, no comício supracitado, promovido pela Coligação “Trabalhando Pelo Povo” composta pelos partidos PSDB, PMDB, PR e PDT que têm como candidatos a prefeito e vice, os empresários Deusdete Gomes de Barros e Miguel Pinheiro Neto, o senhor Mosar Araújo em um ato equivocado e unilateral, arremessou uma garrafa plástica com água mineral na direção do ex-deputado Henrique Alves em ato de protesto, acertando o ex-vereador Marcos Antônio de Macedo. O ato do senhor Mosar Araújo é reprovável, mas o seu erro não pode ser pretexto para justificar as cenas de pura barbárie que se seguiram.

Eu, pessoalmente, e, o biomédico Francisco Monteiro Neto, após tomarmos ciência da intenção de Mosar, nos dirigimos ao comício para retirá-lo do local e evitar que qualquer objeto fosse lançado contra o palanque. Infelizmente não chegamos à tempo e quando nos aproximamos uma confusão já havia sido desencadeada. Após arremessar a garrafa e se retirar do local do comício, o senhor Mosar Araújo foi seguido por uma pequena multidão que o ameaçou de espancamento. Naquela situação temerária, Mosar corretamente se refugiou em minha residência. Nestas circunstâncias a minha companheira, a fisioterapeuta Mayara Costa e a Veruzia Simone, fecharam a porta e tentaram acalmá-lo, informando-o que ele estaria seguro. Ledo engano.

Um grande volume de pessoas se avolumou e minha mãe, a professora Maria José Ferreira Batista, com seus 63 anos, ficou trancada fora de sua residência diante de uma multidão enfurecida, muitos visivelmente embriagados e tomados por ódio. Com dificuldades, consegui conduzir minha mãe à casa de vizinhos. Mosar Araújo, Veruzia Simone e Mayara Costa permaneceram sob cárcere privado e um grupo exaltado tentou arrombar minha residência, desrespeitando o direito à inviolabilidade do lar. Os gritos histéricos de “mata, mata, mata“ e uma tentativa de arrombamento são a demonstração aterrorizante da mais nefasta barbárie. 

É importante esclarecer que Mosar Araújo sofre de transtornos mentais e faz o uso de fortes medicações, o que não justifica o ato de arremessar a garrafa. Contudo, apontamos a reação violenta completamente desproporcional. Chamamos todos a uma reflexão sincera: é cabível tentar linchar um doente em virtude de um ato de protesto equivocado, que não feriu ninguém? Acreditamos que não. Mosar só pôde sair seguro de minha residência quando foi retirado pelos fundos da casa e escoltado pela Policia Militar que havia chegado ao local.

Não posso deixar de registrar que membros da coordenação da campanha eleitoral da Coligação “Trabalhando Pelo Povo”, e, populares, buscaram conter os ânimos exaltados. Ivan de França, Nivaldo Jr., Lino Monteiro, Stenio Filho, Eraldo Filho, Caio Costa, Manoel Domingos, Marcos Antônio de Macedo, dentre outros, se esforçaram para apaziguar a situação e dispersar a multidão. Minha mãe e minha companheira, Maria José e Mayara Costa, foram levadas ao Hospital Regional de Angicos com a pressão arterial alteradas. Não havia médico plantonista e Mayara teve uma crise nervosa, contida em casa.


Lamentamos profundamente, repudiamos todo ato de violência. Quando a rua se torna um palco da guerra e a violência toma o lugar do debate político, ninguém ganha, todos perdem.  Que este seja um episódio que jamais se repita na história da política angicana. Essa é uma questão de tratar agora as coisas como elas realmente são. 
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