Incomparável Messi

Postado por Modesto Neto às 01:27



Por Alberto Luis, mestrando em Sociologia pelo IESP/UERJ.


Dentre os muitos mistérios que cercam o homem, avesso às explicações racionais, aos golpes de força da dialética e aos métodos quantitativos, está a empatia e o seu inverso, a antipatia. Ouvi tempos atrás de uma pessoa uma confissão sincera: antipatizara outrem porque este amava futebol enquanto ela tinha aversão à prática e aos fervores de tal paixão vulgar. Imediatamente, sem que sequer pudesse ativar o filtro da cordialidade, ericei-me dos pés à cabeça e entre nós instaurou-se antagonismo que síntese nenhuma poderá suprassumir. Será necessária toda uma ciência para explicar a potência misantropa que o futebol pode desencadear. Certa feita, na circunstância de uma vizinhança toda rubro-negra, cortei relações com a rua. É que também tenho, caro leitor, os meus surtos de passionalidade. Se pudesse reescrever os dez mandamentos, não titubearia, e converteria em pecado número um, crime hediondo contra a divindade de deus, o perjúrio ante a pelota.

É nesse diapasão que só consigo ver diferenças cosméticas entre uma boa partida de futebol e uma epopéia. Sou daqueles que, como Nelson Rodrigues, acha que só a grandiloquência típica dos memoráveis aedos consegue dar conta, captar a essência mesma do futebol e fazer justiça a ele. Por isso, não há partida marcante que não me traga à memória os feitos de Aquiles, Ulisses ou similar. O drama burguês é insosso demais para dar conta do que acontece ali, entre as quatro linhas, bem como nos arredores e bastidores. O problema é que, venhamos e convenhamos amigos a amigas, a coisa está pra lá de nefasta na resenha esportiva nacional. É muito curió cantando alpiste na mesma estação. Comentarista, resenhista, etc., virou marqueteiro, criou novilíngua e, no caldo da crise da cultura nacional, só é capaz de contar passes errados e decorar valor de transferência de jogador brasileiro em transição de temporada. De tal modo que se alguém não o fez antes, faço-o agora: declaro aqui a quase-morte da crítica futebolística no Brasil! Tá na UTI, só não morreu ainda por graça de blog ou outro. O leitor pode até achar canalhice patriótica, coisa de quem quer puxar a sardinha pro próprio anzol, mas a verdade é que quem lê crônica esportiva de qualidade hoje tem que recorrer ao Blog Síntese.

Não quero com isso dizer que somos isso e aquilo, que nos alçamos ao padrão Nelson Rodrigues de qualidade. Não, de forma alguma. Mas vocês hão de julgar por si mesmos: sapere aude! Façam uma breve busca nesse humilde blog e verão o quão estou certo. Vão constatar que o quadro é magrinho, que a frequência é irregular e que até então estávamos jogando com um homem só – Renato “Ribalta” Kleibson, peralta das várzeas recifenses, e que sozinho já faz um estrago danado. Eis que depois de muito revoltar-me com esse estado de coisas, resolvi botar meu pé na estrada e entrar também nessa jogada. E pra completar o trio de ataque, quero aqui publicamente convocar também o amigo Rosano Freire, craque de bola, narrador de pelada e hábil comentador esportivo de Facebook. Vamo ver agora quem é que vai guentar.

Como isso aqui não é redação da Folha nem linha de produção da Volks, nos damos ao direito e ao desfrute das ruminações sem fim. E ao comentário do oportuno, que na minha concepção pode ser desde o instante kairótico do drible entorta-coluna, passando pelos arrabaldes do gramado até o tempo estendido dos 90 e poucos minutos. Um desses momentos dignos de nota foi a noite do último domingo. Ca-ma-ra-das, a-mi-gos… que es-pe-tá-cu-lo estava o Estádio Metlife! Quando vejo um jogo entre seleções da latino-américa sempre tenho a reconfortante sensação de que o futebol voltou pra casa. Como um ateniense que porventura visse os jogos olímpicos retornarem à Hélade depois de temporada fora. Boa parte das pessoas acham que a pátria-mãe do futebol é a Inglaterra, mas esse é um grande mito. Mito, não, conversa fiada mesmo. Os ingleses, com seus pés chatos e suas tripas longas, desenvolveram o soccer, que para eles consistia numa disputa entre dois grupos por encaçapar um objeto redondo numa meta. Eles reinventaram, sim, a monarquia como adorno, figuração, além da empáfia característica, claro. O futebol quem inventou fomos nós, os latinos. Conta-se que o periférico, esfomeado, maltrapilho e sobretudo privado da letra, da comunicação escrita, impedido de fazer poesia com papel e caneta, primeiro cantou depois fez elipse poética com a cornuda, sob o olhar inicialmente cético, depois revoltado do europeu que achou que fosse trapassa lançar a bola pôr sobre o adversário. E o juiz apitou falta, que eles cobraram, desajeitados, de bico e pra fora...

Mas, voltando ao assunto: e a final da Copa América? Que jogo, que beleza de partida. Hoje, dizem alguns, o futebol se homogeneizou a tal ponto que não se sabe mais quem é quem dentro de campo se trocarmos as camisas dos times, e tecem considerações lamuriosas sobre um passado idílico do futebol nacional. “E mais”, protestam os exaltados críticos informados por toda a tradição filosófica do materialismo histérico e diabólico pronunciada em bom marxês, “o futebol acabou, o capital consumiu até a última gota do futebol-arte”, e continuam, “quero ver Messi e Neymar jogarem na Penha, etc., etc., etc.”. Qual que nada! Conversa de palhoça! Aos sapateiro, os sapatos! À Messi, o que é de Messi. O jogo de domingo foi um autêntico tête-à-tête latino; o Chile com uma evolução tática de dar nos olhos; jogadores como Vargas, com uma elasticidade, uma rapidez... intrépido o garoto; e a mesma marra, catimba tão nossa. É que o sangue é quente! Mas, pra mim, meus caros, mais uma vez, em campo ninguém foi capaz de ofuscar Lionel. E dizendo isso, bato de frente com a torrente de manchetes de jornal que hoje como amanhã, destacaram, destacarão, a sua suposta maldição com a camisa argentina. É que no fim, quando Ele está em campo, pouco importa o resultado da partida.

Quem vê Messi jogar, vê um desfile de gerações. É toda a Argentina de todos os tempos, é toda memória no bico fino das chuteiras imortais, presa aos pequenos pés e às pernas curtas e firmes que cortam a diagonal do campo como um tiro: é quase Borges que se lê naqueles lances pra lá de fantásticos em que tantas vezes o vimos contrariar todos os prognósticos, dos mais otimistas, e desabar como uma flecha de Apolo sobre toda a muralha adversária, fazendo-a ruir como naquela já antológica quartas de final contra os italianos na Champions League. Ah, e que tiro! Ele escorrega, desliza, e em golpes de inteligência e destreza abre clareiras na defesa adversária; expande o espaço e contrai o tempo. Sem dúvida, o jogo de Messi é mais objetivo e menos festivo do que foi o de Garrincha, Ronaldinho Gaúcho ou Neymar. Mas quem há de reclamar a ausência do poético na prosa de Graciliano? Ou nos haikus certeiros de Matsuo Bashô? É que o poético não tem morada na forma, e é ele quem informa Messi.


Ontem ele desabou depois do jogo; as câmeras o pegaram em um momento de fragilidade extrema. Só os heróis tombam; os deuses são imortais e os meramente humanos já caem pra morte. Aquiles chorou as infâmias de Agamenon, mas pela sua desonra toda a Hélade pagou. Seu retorno foi triunfal. As quedas de Lionel as pagaremos nós, que amamos o futebol sem um “por que”, já que, como dizia o velho Leminski sobre a poesia, os inutensílios justificam a si mesmos. Talvez Lionel seja uma daquelas bençãos que os deuses patronos oferecem a seu povo num ato de bondade e restituição ante o sofrimento e a dor. Aquiles agora é autista, sem soberba, vaidade, arrogância. E quem disse que a humanidade não anda pra frente? Espero com fé, agarrado a Logun Edé dum lado e Nossa Senhora do outro, que Lionel se reerga do abatimento. Vai Messi, abre a cortina da tua imensa oficina e tira o extraordinário de lá!
Categorias: