Ali: morre um ídolo do boxe e da luta antirracista

Postado por Modesto Neto às 18:42


O porta-voz da família, Bob Gunnell anunciou em um comunicado oficial: "Depois de um combate de 32 anos contra a doença de Parkinson, Muhammad Ali morreu, aos 74 anos de idade". Ele havia sido internado no hospital devido a problemas respiratórios e já havia sido hospitalizado no início do ano passado com uma infecção no trato urinário.

Da mesma forma em que resistia durante as lutas, Muhammad Ali também resistiu por mais de 30 anos a uma doença degenerativa que afeta os neurônios, o Mal de Parkinson.

Uma história marcada pela brilhante carreira esportiva e pelo compromisso político e social

Nascido na cidade de Louisville em Kentucky, nos Estados Unidos, em 17 de Janeiro de 1942, com o nome de Cassius Marcellus Clay Jr, Ali deu seus primeiros socos no boxe quando tinha 12 anos de idade e depois de seis meses treinando, venceu sua primeira luta de boxe. Ainda como amador, aos 18 anos, ele conquistou a medalha de ouro na Olimpíada, na categoria meio-pesado, vencendo o lutador polonês Zbigniew Pietrzykowski.

Ao voltar aos EUA, mesmo tendo sido recebido com festa por uma multidão em sua cidade-natal, um episódio marcante impulsionou sua batalha pelos direitos dos negros e igualdade racial: ao entrar em um restaurante cheio de brancos e pedir uma xícara de café e um cachorro-quente, o funcionário se negou a servi-lo. “Sou Cassius Clay, campeão olímpico”, explicou, mas de nada adiantou. Decepcionado, o boxeador jogou a sua medalha olímpica no Rio Ohio.

Pouco depois disso, quando já era um profissional, com 19 lutas e 19 vitórias, em 1964, Ali se aliou a Malcom X, defensor dos direitos dos negros e membro da Nação do Islã, o que o influenciou em sua conversão à religião islâmica, mudando o seu nome para Muhammad Ali.

Em 1967, após se recusar a servir o exército americano na Guerra do Vietnã e fazer críticas ao envio de militares para o conflito com vietcongues, Ali foi levado à justiça estadunidense que o considerou culpado e foi sentenciado a cinco anos de prisão e dez mil dólares de fiança. Mesmo sendo liberado após o pagamento da fiança, o governo confiscou seu passaporte e o proibiu de lutar oficialmente e de sair do país durante três anos e meio. Em junho do mesmo ano, o tribunal deliberou a seu favor. Nessa época, sua popularidade havia crescido, enquanto o apoio à Guerra do Vietnã despencava.

O atleta considerado "Personalidade Desportiva do Século XX" pela Sports Illustrated e BBC em 1999 e o maior boxeador dos últimos tempos tem seu nome eternamente gravado na história do esporte, seja por sua postura social e política, ou por sua performance nos ringues, com 57 vitórias, sendo 37 delas por nocaute, e 5 derrotas.

O combate mais longo

Já depois de ter pendurado as luvas, em 1984, Ali revelou que sofria de Mal de Parkinson, e continuou sua militância usando sua fama para ajudar nas pesquisas em busca de uma cura para a doença, inclusive fazendo tratamento com células tronco. Em 1996, foi homenageado e acendeu a pira dos Jogos Olímpicos de Atlanta e recebeu uma réplica da medalha olímpica que jogou no rio após o episódio no restaurante, em 1960.

Em 2005, desembolsou milhões para construir o Muhammad Ali Center, em Louisville, um centro cultural com atividades para inspirar crianças e adultos e perpetuar os seus princípios.

Um lutador dentro e fora dos ringues

Sua personalidade o diferenciava dos outros boxeadores e o fez transcender o mundo do boxe e de todos os esportes, sempre carismático e irreverente, com uma visão política e social marcante, Ali colaborou muito na luta pelo direito dos negros, junto a Nação do Islã e ao Partido dos Panteras Negras mais tarde, sendo considerado uma pessoa comprometida com a realidade do povo. O que não é comumente visto na indústria do esporte, e, acima de tudo, na indústria imperialista dos espetáculos esportivos. Muhammad Ali foi mais longe do que qual esportista da sua geração, ao, de maneira abnegada, lutar pela igualdade total entre negrxs, brancxs e asiáticxs.

Em uma de suas mais famosas entrevistas, ao ser perguntado do por que não foi defender seu país na guerra do Vietnam, respondeu: "Eles (os vietnamitas) nunca me chamaram de crioulo, não tenho porque querer lutar contra eles". Este trecho faz alusão direta a realidade que viviam xs negrxs nos EUA naquele momento, em que após passarem quase um século sob as leis segregacionistas de Jim Crow, xs negrxs passaram a efetivamente pegar em armas, não para lutar contra um inimigo externo, mas contra o inimigo "de casa": o sistema racista e capitalista que os oprimia e assassinava diariamente. Ali, viajou para vários lugares do mundo para levar esta bandeira junto à bandeira do islamismo.

Muhammad Ali, considerado o maior boxeador da história do esporte, fez a sua última aparição pública em abril, num evento para arrecadar fundos para organizações de caridade no Arizona. Inegavelmente uma lenda do boxe e da luta contra o racismo!