A presença da imagem de padre Cícero no comércio em Juazeiro do Norte-CE

Postado por Modesto Neto às 11:45
Michael Medeiros Marques*

Todo fato simbólico necessita de uma essência, como se constituiu o símbolo e de que forma é posto em nossa sociedade, tendo assim sua especificidade. A origem do símbolo do Padre Cícero é baseada no “milagre de Juazeiro”, a hóstia se transformando em sangue na boca da beata Maria de Araújo, esse fato é difundido pelos fiéis do Padre Cícero como um milagre.

Os símbolos são produzidos e apropriados pelo próprio grupo, ou por um corpo de especialistas que conduz à retirada dos instrumentos de produção simbólica dos membros do grupo. Segundo Bourdieu (2005), a história da transformação do mito em religião, as ideologias devem a sua estrutura e as funções mais específicas às condições sociais da sua produção e da sua circulação, quer dizer, às funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para os especialistas em concorrência pelo monopólio da competência considerada (religiosa, artística, dentre outros) e, em segundo lugar e por acréscimo, para os não especialistas, sendo sinal de reconhecimento, e adentrar neste mundo é penetrar no universo do próprio ser humano.

O poder simbólico é esse poder invisível, o qual pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão [1] sujeitos ou mesmo que o exercem. Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só exerce se for reconcebido, quer dizer, ignorado como arbitrário.  (BOURDIEU, 2005, pag.14)

 O símbolo se constrói baseado em sentidos humanos, dos quais fenômenos naturais ou sociais dão sentido a sua existência individual e coletiva. Portanto, o poder simbólico se constitui através da enunciação de seus atores, dos agentes participantes das práticas que são estabelecidas com o contato e ação sobre o mundo em que existe o poder constituinte. Fazer ver e fazer crer, confirmar ou transformar a visão de mundo, permitindo o reconhecimento e conhecimento da força simbólica. 

Segundo Berger (1983), o ser humano, comparado aos outros mamíferos, tem uma dupla relação com o mundo. Por um lado, o ser humano está em um mundo que precede o seu aparecimento, por outro, este mundo não é simplesmente dado, pré-fabricado para ele. Dessa maneira, podemos pensar o modo como foi definido a cultura na sociedade juazeirense, onde o pensamento simbólico em torno do “Padim Ciço” acaba fornecendo as bases, os hábitus [1] e costumes da cultura e sociedade local, ao mesmo tempo em que os indivíduos o constitui continuamente. Há, portanto, uma adesão inerente ao indivíduo.

As práticas religiosas presentes no Juazeiro do Norte demonstram a necessidade de proteção demandada pelos indivíduos locais. O “santo” é construído com aspectos místicos, sociais, e por experiências sociais dos sujeitos inseridos neste espaço em que seus feitos, efeitos e atributos destacam-se, em um cosmos cujas fronteiras entre sagrado e profano configuram-se borradas.

O desejo de proteção se faz no cotidiano de devotos, no dia-a-dia do sertanejo e do citadino, onde os mesmos se orientam e constroem laços de proteção, afetividade e fé no “Padim Ciço”.

Em Juazeiro, nenhum negócio prospera sem a presença da imagem do Padre Cícero. Há um preceito que determina aos citadinos e que é posto em prática a partir das mensagens do sacerdote passadas de gerações em gerações, constituindo um fato social total [2] que diz: “Em cada casa uma oficina, em cada oficina um altar” (CORDEIRO, 2012). Em torno desse preceito, posso tentar perceber com base na investigação sociológica, a atuação de reconhecimento e legitimação dos agentes sociais por conta de cada dizer do Padre Cícero, que predomina a realidade da cultura local.

Considerando o pensamento Weberiano, “que uma empresa é essencialmente capitalista na busca do lucro, da obtenção de acúmulo de riquezas, mas pode ser regida de maneira tradicional” (WEBER, 2001), em que medida o mito fundante determina formas distintas de apelos comerciais inventando uma tradição local?

Todos os aspectos religiosos e seculares que são intrínsecos na sociedade local e inerentes aos indivíduos adeptos, não viriam a determinar um direcionamento e um regimento do modelo econômico comercial com especificidades?

Haveria sansões decorrentes da não adesão à presença do ícone em um estabelecimento comercial?

Ao tentarmos compreender aquilo que está de forma implícita e que nos são postas, as várias formas de dominação que estão presentes na força implícita dos ícones religiosos no modelo comercial na cidade de Juazeiro do Norte, onde de forma inerente aos indivíduos, o poder que esses ícones exercem desde a formação da vila/cidade (como já fora dito) está de acordo com o modo de vida que está colocada a sociedade, analisaremos, portanto, da seguinte forma: o modo de vida constrói ou construiu ao longo dos anos o modelo de exercício comercial predominante na sociedade juazeirense, tem como característica o uso de ícones religiosos nos estabelecimentos da cidade, que refletem as práticas de grande parcela da própria sociedade.

De fato a importância do “padim” está exposta no comércio do Juazeiro do Norte; em todos os aspectos e segmentos comerciais estaremos a encontrar imagem do sacerdote. Poderíamos perceber da seguinte forma: o Padre Cícero está relacionado à uma pessoa que conseguiu realizar um ato extraordinário (milagre da hóstia), ato este que ultrapassa o comum, como também é atribuído ao sacerdote a doação da vida que o mesmo deu a seus “afilhados”, esses mesmos “afilhados” que tornam o Juazeiro do Norte do Padre Cícero como o centro do mundo (ELIADE, 2008). A característica fundamental do mito é localizar-se num tempo fora do tempo. O tempo é semelhante ao sagrado, já que não se prende à história e pode ter cronologia própria. Nas narrações, essas são dimensões especiais, são como espaço e tempo de memoriais, próprio das construções do mito (CORDEIRO, 2012).

Poderíamos dizer que a dominação legítima, ou seja, aquela que quando o dominado reconhece e aceita da dominação, está presente em toda essa realidade social presente em Juazeiro do Norte? Contudo, o presente estudo tentará elucidar essa questão utilizando os métodos sociológicos, o fato da valorização e supervalorização dos ícones religiosos neste aglomerado urbano, em especial a imagem do Padre Cícero no comércio, onde as figuras que se apresentam como santificadas em nossa sociedade têm uma influência marcante nos clientes fiéis.

NOTAS

[1] Internalizamos regras e normas sociais, mas existem aspectos de nossas condutas que não são previsíveis. É como um jogo que sabemos as regras e o seu sentido, mas que também podemos improvisar. A noção de “habitus’ exprime, sobretudo, (...) a recusa a toda uma série de alternativas nas quais a ciência social se encerrou a da consciência (ou do sujeito) e do inconsciente, a do finalismo e do mecanismo”.

[2] O conceito do fenômeno ou fato Social Total sugere que o objeto real das ciências sociais é o estudo da realidade social, ou seja, um conjunto de fenômenos que se produzem e reproduzem no interior de uma sociedade, designados como fenômenos sociais. Todas as dimensões do real social são peças de encaixe, e, apesar de cada ciência estudar a área que lhe compete, o fenômeno social é total e só é explicado completamente com a junção de todas as dimensões, nunca se esgotando completamente com o estudo de uma só ciência. Daí que possa dizer-se que, separadas as ciências estudam o que lhes compete e juntas complementam-se. O social é um todo, englobando diferentes tipos de relacionamento entre indivíduos e entre o mundo que os abrange.


(*) Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri (URCA), professor do quadro efetivo do estado do Ceará e mestrando em Ciências Socais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).