Fugindo da realidade

Postado por Modesto Neto às 12:56

Por Silvia Rollinger - Berlim/Alemanha
  
Ódio e solidariedade. Dois sentimentos distintos, porém, ambos têm caminhado juntos nas últimas semanas aqui na Europa. O que estamos vendo é um dos maiores êxodos que a história moderna já presenciou. A maioria dos que buscam abrigo na zona do euro vem do leste europeu e da Síria, país que nos últimos anos tem passado por uma guerra de grupos radicais islâmicos.

Não é de hoje que a Europa está heterogênea. Desde o fim da segunda guerra mundial a Europa tem aceitado grupos migratórios provindos de diferentes culturas como é o caso dos árabes. Inicialmente essa aceitação aconteceu pelo fato de se precisar reconstruir os países afetados pela guerra. A Alemanha por exemplo chegou a recrutar centenas de turcos para reconstruir cidades como Berlim que estava totalmente destruída. Em troca esses turcos se tornaram cidadãos alemães e muitos, passado o período não voltaram mais para sua terra natal, pelo contrário, fincaram raízes e já estão na 3° ou 4° geração. Há muito tempo a ideia de uma Alemanha loira e intolerante não existe mais. França, Áustria e Holanda são outros exemplos de países que vivem muito bem com seus grupos migratórios.

Há fatos, na minha opinião que poderiam ser cômicos se não fossem trágicos. A região da Síria me faz realmente pensar no poder doentio da mente humana. Ainda na época de Aristóteles a Síria era um modelo de país libertador. As mulheres Sírias eram vistas como nenhuma outra. Mulheres independentes, muitas iam à guerra enquanto outras se dedicavam a ciências como matemática e física. Anos depois se tornou uma país tão católico como são Brasil ou Itália hoje em dia são. Porém a Síria que nós conhecemos hoje é berço não de uma religião, o islã, mas sim de uma radical filosofia de morte.

Não se pode julgar os refugiados, não se pode julgar quem deixa tudo para trás e foge em busca de algo melhor. Essas pessoas que hoje estão embarcando em trens, ou escapando perigosamente pelo mar sem destino certo, apenas com o desejo de chegar na Europa e ter a certeza de estarem protegidos pelo estado.

Há mais ou menos um mês atrás quando a Alemanha já não podia mais fechar os olhos e o número de pedidos de asilo não só cresceu como os fugitivos passaram a fazer fila na porta dos consulados alemães alegando se sentirem ameaçados em seus próprios países, surgiram aqui então dois grupos. O primeiro formado pela direita que rege o país, CDU é o partido católico e conservador da chanceler Angela Merkel, que diferente do que todos esperavam passou a apoiar os refugiados, construir moradias e planejar como irá integrar toda essa gente em pouco tempo. E o segundo grupo formado pela extrema esquerda, leia-se aqui uma minoria formada pelos apreciadores da filosofia de Hitler. Apesar dos mesmos serem minoria, são responsáveis pela queima de abrigos para refugiados e também por infinitas demonstrações ao ar livre que exaltam como os estrangeiros são indesejados.

 A maioria dos alemães tem se mostrado abertos a tudo o que vem acontecendo, talvez porque os mesmos ainda tragam na memória como é ter de deixar toda uma vida para trás e ir buscar abrigo em outro país. A foto do menino sírio que morreu no mar comove a tantos, pois muitos talvez se lembrem da história dos bisavós ou avós que cruzaram o atlântico em rumo aos EUA ou a América do Sul e não chegaram vivos pois não sobreviveram as pestes que atacavam as viagens longas e cansativas daquela época.

Toda essa conscientização é muito importante e bonita de se ver, porém, o que não se pode esquecer é que não é apenas receber bem os refugiados, oferecer comida e abrigo. Melhor que dar-se o peixe é ensinar-se a pescar, e isso a meu ver a Alemanha não está preparada. Oferecer cursos de integração, de alemão e possibilitar que todos venham em um futuro próximo à trabalhar ou frequentar a faculdade e não apenas realizar trabalhos inferiores que os próprios alemães não querem mais fazer irá ser um trabalho enfadonho e extremamente difícil. Necessitasse de compreensão e força de vontade de ambos os lados. A situação é complicada e exige muita sabedoria dos governantes e paciência aqueles que não podem voltar para suas casas. O trabalho está apenas começando.