Alguns comentários sobre José Dirceu: história, farsa e tragédia

Postado por Modesto Neto às 01:03

Por Modesto Neto

Esta semana li um artigo do jornalista Josias de Sousa da Folha S. Paulo intitulado “José Dirceu tornou-seum Guevara às avessas” onde narra brevemente o percurso histórico e o apodrecimento de um notável dirigente político, um dos principais líderes estudantis de uma combativa UNE, personagem indômito das lutas travadas conta a Ditadura que assassinou e torturou milhares no Brasil. Seu nome: José Dirceu.

O jovem que trocou de rosto e viveu na clandestinidade foi um ator importante com a emergência de Lula a Presidência. Protagonizou articulações, costurou uma base social e parlamentar e idealizou e constituiu (ao preço do suicídio ideológico do PT) as engrenagens da governabilidade de coalisão, noutras palavras: a governabilidade do toma lá, da cá. Dirceu ingressou na máquina do Estado e em vez de ajudar a transformar o capitalismo brasileiro - leda e tola ilusão do reformismo -, acabou por ser transformado e corrompido pelo Comitê Executivo da Burguesia.

A experiência de Dirceu a frente da Casa Civil do Governo Lula prova que o Estado pode corromper até o mais radical dos dirigentes políticos. A lição concreta que tiro destes episódios é que não podemos nos iludir com o aparato do Estado ou ter a impressão que as mudanças substâncias que alteraram o curso da história virão pelo campo da institucionalidade.

Sinceramente, lamento muito que um jovem como foi Dirceu tenha se tornado o que se tornou: apenas um político que não se conteve frente às regalias dos palacetes e hoje está indiciado em casos de corrupção. Espero que as novas gerações de militantes e dirigentes políticos das esquerdas anticapitalistas não cometam os mesmos erros.


No 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx escreveu que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Infelizmente Dirceu se tornou a síntese da farsa e da tragédia de um enredo incompleto que tem como pano de fundo os meandros do poder. Sua biografia migrou das páginas dos livros sobre a história das lutas no Brasil para as páginas policiais nos jornais. Apenas sepultando definitivamente as ilusões com a institucionalidade no intimo de uma alma revolucionária ter-se-á alguns indícios que este dirigente político não se dobrará a lógica cega das coisas nos jogos pelo poder.