Racismo, futebol e jornalismo: Cristóvão Borges e o racismo da imprensa

Postado por Modesto Neto às 11:53

Por Daniel Botelho, estudante de jornalismo UERJ.



A democracia racial brasileira é um mito. O racismo está presente, de alguma forma, em todas as relações sociais durante nossa história. O futebol e sua estrutura, obviamente, não são uma exceção. A imprensa, suas faculdades, estúdios e redações, predominantemente brancas, tampouco. O assunto atual, que envolve racismo, esporte e imprensa, merece ser refletido, sobretudo por jornalistas, que cometem o gravíssimo erro de desprezar ou relativizar em suas análises a relevância do preconceito sobre qualquer relação em nossa sociedade.

No início do século 20, o futebol era praticado quase que exclusivamente por clubes de engenheiros, técnicos ingleses e seus familiares, sendo os clubes organizados em sua estrutura política de forma que a elite social, as “família de bem”, concentrasse o poder sob seu comando, restringindo a ampliação da participação política e a democratização das estruturas de poder (tais características oligárquicas ainda presentes nos grandes clubes de futebol do Rio de Janeiro, através de seus restritos quadros sociais).

A profissionalização do futebol, na década de 30, abriu as portas dos grandes clubes brasileiros, finalmente, aos profissionais negros e pobres. Entretanto, deve-se ressaltar, essa abertura não denota uma transformação de pensamento da elite branca, um aceitamento do negro por parte da “outrora” racista oligarquia. A aceitação da elite explica-se pelo processo de construção de uma identidade nacional, uma estratégia varguista, em que buscou-se um cínico abrandamento das históricas tensões raciais, marcadas pela escravidão e pela ideologia do branqueamento racial pós-abolição, minimizando a violência dos brancos cometida contra negros e índios. A Era Vargas buscou legitimar as manifestações afro-brasileiras como componente da identidade nacional, mantendo-as sob controle do poder público, ao mesmo tempo em que tentou criar uma imagem de apaziguamento, conciliadora, das questões raciais. Foi assim com o samba, foi assim com o futebol e sua profissionalização (e inserção do negro).

A contextualização serve para comprovar como o racismo sempre fez parte da estrutura do futebol nacional, especialmente carioca. Portanto, em nossas análises, não podemos desconsiderar esse fator. Renato Maurício Prado, colunista do Globo, conhecido por botafoguenses, tricolores e vascaínos por publicar notícias embaraçosas a esses clubes em vésperas de clássicos contra o Flamengo, seu clube do coração, recentemente mostrou o racismo presente em nossa imprensa, e o desinteresse da classe em enfrentar o problema como, de fato, merece ser enfrentado. A imprensa brasileira, que escolheu como culpados pela catastrófica derrota brasileira em 1950, justamente, os jogadores negros: Barbosa, Juvenal e Bigode.

O citado jornalista referiu-se a Cristóvão Borges, técnico do Flamengo, como o “Mourinho do Pelourinho” (durante o período colonial, o local servia para castigar escravos na frente dos outros como forma de exemplo). A reação do jornalista,que justificou-se dizendo ser apenas uma brincadeira de uma personagem sua, minimiza as reclamações do treinador do Flamengo, visivelmente incomodado com as críticas com viés racista de que tem sido alvo. Desse modo, é mantida a tradição brasileira de relativizar o racismo.

Há um personagem histórico que provavelmente adequaria-se ao senso de humor de Renato Maurício Prado: o senhor de engenho. Morando ali, escondidinho, vez por outra ele dá as caras, diz que não é bem assim (“você está exagerando, isso é coitadismo”), que tem até amigos negros(!!!), e se esconde novamente. Está exposto nos “elevadores de serviço”, nos “quartinhos de empregada”, na elevação do tom de voz acompanhada por um “sabe com quem você está falando?”, no desprezo acadêmico eurocêntrico pelos saberes oriundos da África, e nas críticas exageradas a Cristóvão e Andrade.

Os negros não estão representados significativamente em qualquer estrutura de poder no Brasil, inclusive no futebol, onde as posições hierarquicamente mais elevadas (presidentes, dirigentes, diretores e treinadores) são monopolizadas por brancos de classe média-alta. O negro, ao longo do século 20, foi se inserindo, mas sempre com um lugar bem definido dentro da estrutura esportiva futebolística: como atleta, mas raramente (para não dizer nunca) como dirigente ou técnico. É inadmissível que a imprensa esportiva não trate do assunto com a seriedade que merece. É inadmissível haver pouquíssimos treinadores negros na Série A. Andrade foi campeão brasileiro, Jayme foi campeão da Copa do Brasil, e onde eles estão? Enquanto brancos, que nunca chutaram uma bola na vida, tampouco ganharam alguma coisa, estão cheios de prestígio no mercado e na imprensa. É inaceitável que a história da Seleção Brasileira, de Pelé, Zizinho, Garrincha, Leônidas e Domingos da Guia, encontre raríssimos treinadores negros em sua história, em compensação: Mano Menezes, Dunga, Parreira, Felipão, Leão, Candinho, Luxemburgo, Zagallo... Brancos, brancos, brancos... É inaceitável que os jornalistas continuem desprezando a nocividade e a contemporaneidade da obra da escravidão, e como ela é mantenedora de privilégios. Provavelmente, o desinteresse dos jornalistas em tratar a questão com a seriedade merecida esteja justamente no mesmo fato: olhem em sua volta nas redações – brancos, brancos, brancos, brancos...



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