Reforma das comunicações para uma nova política: desafio estratégico

Postado por Modesto Neto às 23:05

Por Modesto Neto​

Florestan Fernandes não foi apenas o maior interprete de Marx no Brasil, ou, o maior sociólogo brasileiro de que se tem nota. Florestan era um inequívoco revolucionário e um homem notável em todas dimensões da vida, não é a toa que morreu em uma fila do SUS, negando-se a ser atendido pelo sistema privado de saúde ou usar as prerrogativas de parlamentar que tinha direito já que era deputado.

Em 1994 o mais brilhante professor da USP de todos os tempos concedeu uma entrevista ao programa "Roda Viva" que só não foi mais proveitosa pelo baixíssimo nível de alguns jornalistas que compuseram a mesa. Acrescento: nível intelectual, mas, sobretudo de humanidade e respeito.

Florestan era um agitador de idéias e sonhos. Um homem a frente do seu tempo como poucos na face na terra. Mas, mesmo assim identificar as posturas deselegantes  e desrespeitosas da mídia brasileira nesta entrevista é tautológico. Numa entrevista concedida há 21 anos é possível ver que a mídia no Brasil pouco mudou, continua como uma fiel defensora dos dominadores e opressores. Florestan, neste quadro, era uma voz dissonante, profunda, capaz, mas, infelizmente, pouco entendida. Já alguns jornalistas se portavam como donos da verdade e capitães do mato, Florestan (de origem pobre, para não dizer miserável) era obrigado a suportar o caminhão de asneiras vociferadas por gente como o Milton Coelho da Graça, como o escravo que é chicoteado no tronco de uma árvore.

Neste período de grandes mobilizações pelo Brasil no inicio nebuloso do segundo mandato da Dilma Rousseff, o debate que a esquerda brasileira precisa tocar não deve se reduzir a dicotomia pró ou contra impeachment, não pode se restringir a posicionamentos formais. Reforma política, reforma dos meios de comunicação, reforma tributária, nunca foram tão emergentes e dialéticas no horizonte político; as relações entre essas dimensões do poder são parte do núcleo duro desse mesmo poder. Uma revolução social perpassa por profundas mudanças no pano de fundo do poder.

Dilma e Aécio, PT e PSDB, jogam para o mesmo time com graus pouco diferentes de dedicação. São pernas de pau da mesma seleção do capitalismo selvagem e degradador. Ambos se acotovelam para executar o mesmo projeto neoliberal. Ambos representam um zero em termos de mudanças estruturais para o pais. Se  o alemão Kropotkin estava certo quando dizia que "nenhuma revolução social pode triunfar se não for precedida de uma revolução nas mentes e nos corações do povo", então que coloquemos a questão da comunicação como um dos pontos centrais e prioritários da nossa luta por um Novo Mundo.

A grande mídia cumpre um papel deseducador e alienante. Furar esse muro (como diria o saudoso Plínio de Arruda Sampaio) é uma grande tarefa a ser tocada. De resto, sejamos coerentes: os partidos da ordem, as grandes corporações, os setores burgueses, o fundamentalismo religioso, as telecomunicações convencionais, não são, nem podem ser nossos aliados. Nesta luta por uma reforma radical que democratize os meios de comunicação, não se pode ter como aliados aqueles que dominam a propaganda e dão vasão aos discursos de ódio e eternamente advogam para o capital. A dicotomia PT x PSDB, só serve ao projeto do capital. Independente da vitória desses dois setores, a grande burguesia continuará dando as cartas. O que precisamos é quebrar a banca deste jogo, mas, para isso, é imprescindível pôr um fim as manipulações mais vexatórias produzidas pela grande mídia. A questão da comunicação é estratégico e essencial. Essa luta é para ontem.


Natal/RN, em 15 de março de 2015.


Entrevista de Florestan Fernandes ao RODA VIDA:


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