Para Janine, Levy é ‘único ministro indemissível’

Postado por Modesto Neto às 21:30


Folha S. Paulo – Josias de Sousa



Pode-se dizer muita coisa do professor e filósofo Renato Janine Ribeiro, menos que ele seja do tipo que traz as opiniões na coleira. O novo ministro da Educação é dono de avaliações agudas. E não costuma se esquivar de exprimi-las. Ao contrário. Leva-as à vitrine num ritmo frenético, em artigos e entrevistas. Já declarou, por exemplo, o seguinte: “Como o governo da Dilma foi uma decepção do ponto de vista econômico, então, a política que ela está adotando agora é tucana. Com ressalvas, mas é parecida com a dos tucanos.”

Para Janine, o titular da pasta da Fazenda, Joaquim Levy, “talvez seja o único ministro indemissível desse governo. Não apenas porque ele é forte. Se ele se demitir, todos saberão que Dilma não apoiou seu projeto de recomposição da economia.” Nas atuais circunstâncias, nem os empresários, que talvez preferissem Armínio Fraga —o ministro da Fazenda que Aécio Neves não teve a oportunidade de nomear—, nem mesmo eles apoiam a saída intempestiva de Dilma Rousseff do cargo antes do prazo constitucional de 2018.

Ouça-se Janine: “Se o preço de o Armínio entrar for um processo complicado de impeachment, com manifestações na rua, com contramanifestações, greves… Se o governo for mais à direita pelo fruto de um processo não democrático, como aconteceu no Paraguai e em Honduras, haverá fortes riscos de a sociedade entrar em uma crise séria. Isso não é bom para os empresários.”

O Janine retratado nesse texto pode ser encontrado numa conversa publicada há 12 dias na revista Brasileiros. Um detalhe conspirou a favor da franqueza do entrevistado. Àquela altura, Janine, um eleitor não-petista de Dilma Rousseff, ainda não farejava a hipótese de colocar os sapatos na Esplanada dos Ministérios. Aliás, ele não invejava a rotina dos auxiliares de Dilma.

Ouvido pelas repórteres Luiza Villaméa e Márcia Pinheiro, Janine lamentou que Dilma tenha conservado no segundo mandato um hábito do primeiro. “Os ministros continuam tendo as orelhas puxadas cada vez que falam uma coisa de que ela não gosta. Não há autonomia dos ministros.” O agora ministro da Educação abriu apenas duas exceções. Além de Joaquim Levy, só Juca Ferreira, o ministro da Cultura, tem “mais autonomia” do que os colegas.

Na opinião de Janine, Levy dispõe de autonomia “justamente por ser quase uma intervenção tucana na economia, um símbolo do descumprimento da promessa de campanha” de Dilma.  Quanto a Juca, embora comande uma pasta que o governo considera desimportante, ele “tem força no meio cultural que dá a ele grande autonomia.” De resto, como Juca “maneja um orçamento pequeno, comparado com o resto, provavelmente não vai levar puxão de orelha.”

Não se sabe que compromissos Dilma assumiu com Janine para convencê-lo a assumir o comando da Educação. Mas não é negligenciável a hipótese de os dois terem trocado ideias sobre orelhas. Janine não ignorava os riscos: noves fora Levy e Juca, “os outros ministros correm o risco de terem a orelha puxada o tempo todo'', disse há 12 dias. “O que torna difícil para eles irem a público. Vão defender o quê? De repente, muda tudo. Defendem o governo e recebem uma correção de cima.”

Neste sábado (28), a repórter Joana Cunha revelou um fato que desafia a máxima de Janine. Ela conta que, há quatro dias, o ministro da Fazenda disse, a portas fechadas, que Dilma nem sempre age da maneira mais eficaz. Levy falava para um grupo de ex-alunos da escola de negócios da Universidade de Chicago. Expressando-se em língua inglesa, afirmou:

“Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuino''. A repórter obteve gravação dos comentários. Em condições normais, Dilma ficaria furiosa. Mas se Janine estiver certo, as orelhas de Levy estão a salvo. Afinal, que presidente ousaria maltratar um ministro “indemissível”?

Num artigo publicado em 5 de janeiro no jornal Valor, Janine já havia esmiuçado a tese da indemissibilidade do ministro da Fazenda. Nesse texto, o novo ministro de Dilma anotara que Joaquim Levy “é tão necessário ao governo Dilma 2.0 quanto Henrique Meirelles foi ao governo Lula 1.0”.


Acrescentou: “Doze anos atrás, o banqueiro Meirelles foi o fiador do governo Lula junto ao mercado. Com os anos, deixou de ser indispensável (embora tenha continuado no cargo), porque o patronato adquiriu confiança em Lula. Hoje, Levy é o fiador do segundo governo Dilma junto ao mercado. Ao menos nos proximos anos, se ele demitir-se ou for demitido, serão sérios os riscos para a governabilidade econômica. Isso lhe dá um mandato forte.”
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